Resenha: Dunkirk

O enredo pode ser incrivelmente simples, mas é nessa simplicidade que Christopher Nolan nos traz uma incrível experiência cinematográfica. A cada filme, ele vinha trabalhando em um equilíbrio de inovação com histórias que desafiavam o espectador e artifícios técnicos refinados com efeitos práticos (o cenário virando em A Origem mora nas minhas lembranças). Mas em Dunkirk, Nolan retrata um dos momentos mais traumáticos para a Grã-Bretanha durante a 2ª Guerra Mundial sem cair em pieguices famosas nesse tipo de história dramática, e mantém sua marca refinada.

A trama basicamente mostra a retirada das forças britânicas de Dunkirk, praticamente tomada pelos alemães, devido ao medo de que a Guerra chegue à ilha. Acossados por todos os lados, só resta aos britânicos esperarem em fila na praia por um resgate que cada vez se torna mais improvável. A solução vem do outro lado do mar, onde uma pequena e modesta frota de iates e barcos de pesca são tudo o que resta para chegar até os soldados. A história se divide como uma frente de guerra: por terra, acompanhando um soldado (Fionn Whitehead) tentando sobreviver enquanto espera o resgate; por ar, com um piloto de spitfire (Tom Hardy) se esforçando ao máximo para manter os aviões e bombardeiros inimigos longe da orla e dos soldados; e pelo mar, com um bravo capitão (Mark Rylance), seu filho e seu melhor amigo atendendo ao chamado e indo ao resgate dos soldados, mas acabam encontrando um soldado (Cillian Murphy) vítima de um ataque de torpedo que resiste à ideia de retornar para o inferno de onde acabou de sair.

A história é propositalmente não contextualizada. Nolan nos joga no meio da confusão, nos dá a sensação daqueles soldados que também não sabem mais o que estão fazendo ali. E o filme vem numa escala crescente de urgência, cada minuto mais próximo do fim da frota inglesa, tornando todos alvos fáceis naquela praia esperando por um resgate que nunca chega. Tanto a edição quanto a magnífica trilha de Hans Zimmer aumentam essa urgência, com um insistente e frenético tique-taque nos lembrando do pouco tempo que a frota britânica tem.

Nolan é um dos poucos diretores que sabem usar a tecnologia IMAX, e aqui ele levou seu trabalho a um novo nível. Planos soberbos, sempre brincando com a perspectiva e trabalhando bastante com a câmera na mão, nada é perfeitamente plano. Nas cenas de voo, sentimos a aflição e o aperto dos pilotos nas cabines apertadas, com todo o mar abaixo e o horizonte à frente. Embora não tenha nenhuma atuação marcante, todas são boas, em especial Rylance, Hardy e Kenneth Branagh, muitos inspirados. Até mesmo o OneDirection Harry Styles se sai muito bem.

Dunkirk está longe de ser um novo Resgate do Soldado Ryan. Talvez por fugir totalmente desse aspecto, o filme nos mostra de forma verdadeira as afetações características do gênero, transformando um trágico momento em uma lembrança de bravura. No final, não ficam os momentos de batalha, mas os momentos de apoio, como uma enfermeira servindo chá e um senhor distribuindo cobertores. Apesar da derrota, a perseverança prevalece.