Resenha: Homem-Aranha – De Volta ao Lar

Agora que Sony e Marvel Studios chegaram a um acordo (mesmo que temporário) sobre o Homem-Aranha nos cinemas, podemos ver o primeiro filme do herói participando do mesmo universo dos Vingadores e claro, tendo que dividir as atenções do mundo com os Heróis mais Poderosos da Terra. Se para um nerd isso é um sonho se realizando, também é algo que poderia fazer muito mal ao Amigão da Vizinhança. Felizmente, Homem-Aranha – De Volta ao Lar consegue dosar bem os momentos Tony Stark, e acerta muito mais do que erra.

Sem se preocupar em recontar as origens do Homem-Aranha, a trama segue imediatamente os acontecimentos de Capitão América – Guerra Civil, e vemos como foi para o jovem Peter Parker (Tom Holland) participar de uma grande missão internacional ao lado dos Vingadores e logo depois ter que voltar a sua realidade no Queens, onde ele combate ameaças de proporções muito menores e ainda tem que lidar com a escola, o que para um adolescente às vezes pode ser mais difícil do que lutar contra o mais poderoso dos vilões.

É nessa essência de comédia adolescente, bem no estilo dos filmes do John Hughes dos anos 80 (como Curtindo a Vida Adoidado e Clube dos Cinco), que De Volta ao Lar acerta em cheio. Ele é um filme sobre os dramas da adolescência feito para adolescentes, mas que consegue atingir também o público mais velho por um motivo bem óbvio: todos nós já passamos por isso! Aquela necessidade de se encaixar em algum grupo, de querer fazer parte de algo legal, de ser notado, tudo isso está no filme e de uma forma muito divertida. E felizmente, sem triângulos amorosos!

Peter Parker, que nunca pareceu tão jovem no cinema, está nessa fase, não só como Peter, mas também como Homem-Aranha. Ele quer fazer parte de algo legal, mas no seu caso, vai muito além da escola: significa poder ser parte dos Vingadores. Isso distorce um pouco as motivações do herói, que parece fazer tudo só para poder ganhar o reconhecimento do Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), seu mentor desde a Guerra Civil, e entrar para o time. Ficaria ridículo se ele fosse um cara mais velho, mas é interessante ver a jornada do Peter mais jovem, querendo ser o Amigão dos Vingadores, quando é muito mais necessário agindo como o Amigão da Vizinhança.

Mas o filme não é só uma comédia adolescente, é um filme de super-herói. Então sim, temos uma trama envolvendo os planos do Abutre (Michael Keaton), que acertadamente (obrigado roteiristas!) não quer dominar o mundo. Ele é um vilão com motivações muito coerentes (o que é difícil em filmes de heróis) e seu duelo com o Aranha é algo muito mais contido. E por conta de uma grande mudança na história do vilão em relação a sua versão nos quadrinhos, esse embate se mistura com a vida pessoal do herói, algo que sempre foi uma qualidade das boas histórias do Homem-Aranha.

A trama não funcionaria sem um bom elenco, e felizmente ele é incrível. Tom Holland consegue fazer um Peter com cara de perdedor sem ser dramático demais e um Aranha muito divertido, Michael Keaton acerta o tom do vilão (um dos melhores dos filmes da Marvel), Robert Downey Jr. só aparece em poucas cenas e não rouba o filme pra si, além de todos os excelentes coadjuvantes. Os destaques vão para Ned (Jacob Batalon), o amigo nerd do Peter que garante ótimas piadas, e para a Michelle (Zendaya), uma garota que pode até passar despercebida por ter tão pouco tempo de tela, mas que consegue deixar aquele gostinho de “quero ver mais dela no próximo filme”.

No fim, Homem-Aranha – De Volta ao Lar é um filme com um roteiro redondinho e bem divertido, fazendo valer muito a ida ao cinema. As cenas na escola são ótimas, as piadas funcionam, e o dilema do Peter em ter que sacrificar sua vida normal para ser o Aranha está presente o tempo todo. Os pontos fracos ficam por conta da ação, já que não temos nada muito memorável. Para se ter uma ideia, a melhor cena do filme (e a mais tensa que eu consigo lembrar, ao menos desse “gênero super-herói”) acontece dentro de um carro, em que herói e vilão se enfrentam sem uniformes e sem luta.

Se você for um fã dos quadrinhos, vai notar uma chuva (quase uma tempestade) de referências e ficar feliz cada vez que pegar uma. Agora, se você quer ver uma adaptação extremamente fiel, talvez saia um pouco decepcionado. Existem muitas mudanças em relação a personagens e a algumas características deles, não só físicas como de personalidade. O próprio uniforme tecnológico do Aranha, cheio de brinquedinhos do Homem de Ferro, pode incomodar os mais puristas, mas no fim, acaba gerando piadas muito boas que compensam essas liberdades criativas do filme. E pensando bem, eles conseguiram fazer do Abutre um vilão legal. O Abutre! Se isso não faz você aceitar todas as outras mudanças, não sei mais o que faria.