Resenha: O Matador

Nosso brother Rickk Barbosa do Cinetop conferiu o primeiro filme original 100% nacional da Netflix, e abaixo ele diz o que achou da fita.

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Netflix estréia O Matador, primeiro longa-metragem da plataforma produzido no Brasil. A companhia, que já havia investido em série como “3%”, entra de vez na seara de produções nacionais.

Contado como uma história entre sertanejos, o filme traz a lenda de Cabeleira (Diogo Morgado, da série ‘Filho de Deus’), jovem criado numa região isolada de tudo no interior de Pernambuco, e abandonado pelo homem que o criou, um assassino chamado Sete Orelhas (Deto Montenegro, de “Colegas”). Após anos sozinho naquela região completamente desértica, Cabeleira um dia toma coragem e parte para a cidade mais próxima em busca deste pai que o deixou.

Partindo desta sinopse poderíamos pensar que se trata de uma história unicamente de drama. Porém, “O Matador” tem ambições e nuances maiores. O filme todo é um faroeste do Brasil, no nordeste do início do século passado, e na simplicidade e na dureza que envolvem os filmes do gênero. A ida de Cabeleira para um novo lugar revela um ambiente dominado pela ganância pela riqueza local – a Turmalina – e uma cidade vendida à um homem conhecido como O Francês, que domina a região (Etienne Chicot, de “O Código DaVinci”).

É interessante notar como o filme sai de seu mote principal, do garoto que vai atrás do seu pai, para apresentar uma cidade. Diferente de outros filmes do gênero, que cercam somente o protagonista e passando o filme em torno das ações únicas dele, o diretor Marcelo Galvão tomou a decisão de mostrar um entorno para a Pernambuco dos anos 40. O tempo é bem delineado, mostrando um vilarejo batido pela exploração de pedras, pela violência brutal e pela prostituição. A malícia do lugar é bem representada, inclusive, numa estranha canção que o Francês canta para sua esposa (Maria de Medeiros, de “Pulp Fiction”) em uma das cenas do filme . Assim, o lugar onde chega Cabeleira é quase uma “cidade do pecado” no lugar mais afastado do nordeste, onde passou Lampião e seus cangaceiros, e por onde corria também os Macacos, termo pelo qual eram conhecidos os rivais que perseguiam os cangaceiros (representado aqui por Paulo Gorgulho, que fez “O Cangaceiro” em 1997).

O personagem de Gorgulho, aliás, merece elogios. Como um “macaco“, o ator entrega um homem que ganha um alvo em suas costas, por colocar-se contra os cangaceiros enviados pelo francês. À medida que seu personagem aparece, ele faz as demais amarras aos outros personagens, como o policial vendido ao francês, e sua esposa e sua cunhada (Thayla Ayala).

Este background faz o espectador entender como os instintos de Cabeleira, que boa parte do tempo é praticamente um animal só com instintos, vai caminhando entre quem quer ver o pai e quem entende que o dinheiro e as armas tudo compram. No desenrolar dos fatos, quem assiste acompanha um crescimento que se pode entender até o ponto onde as coisas chegaram e o desfecho que se dá. Uma montagem por muitas vezes estranha do ponto de vista cinematográfico, mas que funciona muito bem e não se deixa perder.

Como primeira experiência nacional, “O Matador” nos diverte e faz bem aos fãs do gênero. E em um ano de boas surpresas no cinema tupiniquim, o longa de Galvão é um acerto ao olhar para um passado que é o nosso faroeste, mas que basta trocar alguns personagens e trazer para a dita “cidade grande” que veríamos exatamente a mesma sociedade que encontramos nos dias atuais. Talvez, só com mais recursos, mas com as mesmas ambições que o diretor apresenta no cangaço.