Resenha: Soundtrack

Pessoal, a nossa crítica fresquinha foi feita pelo nosso colaborador Arthur de Paiva Napoleão, um apaixonado por aprender e criar. Atualmente aprendendo e criando em marketing digital e se aventurando no mundo do cinema e da música. Sol em Game of Thrones, Ascendente em House of Cards e Lua em O Curioso Caso de Benjamin Button.

Esperamos que vocês gostem.

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Uma experiência que mexe com os 5 sentidos. Podemos dizer que Soundtrack encanta mais pelo que não é dito do que pelo diálogo (que não deixa de ser ótimo). A começar pela trama em si. Nela, Cris (Selton Mello) é um artista empenhado em realizar um experimento artístico no Ártico. Esse projeto envolve música, fotografia e a ideia de criar uma exposição que envolva o público com os sentimentos do artista na concepção das fotos. Ao longo de Soundtrack, é intrigante ver o processo criativo de Cris e seu desfecho surpreendente.

Além da referência à música, temos uma trilha sonora intensa, que complementa as atuações e os planos. Em alguns momentos, a própria trilha sonora rouba a cena e nos conduz por momentos que passam pelo drama e pelo humor. Detalhe interessante também é que em várias cenas não ouvimos a música que os personagens escutam. A forma como experimentamos essas trilhas é através da reação das personagens. E os atores dão conta do recado.

Outro destaque é o cenário em que grande parte do filme se passa. A imensidão da paisagem ártica contrasta com os pequenos espaços dos alojamentos na estação de pesquisa. Esse contraste funciona muito bem como apoio às diferentes interações entre as personagens, tanto em momentos divertidos e leves, como o futebol entre os pesquisadores, quanto em momentos mais tensos.

E no centro disso tudo temos a equipe de pesquisa, com quatro cientistas de diferentes especialidades e nacionalidades. Esses homens já formavam um grupo e a chegada de Cris se mostra um desafio para todos na Estação de Pesquisa, levando a um suave embate entre arte e ciência. Completando o trio de protagonistas estão o botânico brasileiro Cao (Seu Jorge) e o cientista ambiental britânico Mark (Ralph Ineson, de A Bruxa). A interação entre esses três é o cerne do filme, com destaque para a dupla formada por Ineson e Mello. O encantamento se dá pela relação construída entre os dois, pelos conflitos e pelos momentos em que eles aprendem um com o outro. Ralph dá um show, conseguindo alternar força e sensibilidade na sua performance, e, ao longo do filme, a história e a personalidade de sua personagem se revelam de forma única.

Seu Jorge é outro ponto positivo do filme. Além de ter ajudado a compor a trilha sonora, ele consegue transitar pelo humor e pelo drama com simplicidade, de forma autêntica e natural. Na dinâmica da trama, sua personagem traz um equilíbrio para o conflito entre Cris e Mark. Aliás, uma cena hilária do filme acontece em uma refeição compartilhada pelos três protagonistas.

Esse é o primeiro longa dirigido por Manitou Felipe e Bernardo Dutra. Mais conhecidos pelo nome 300ml, a dupla vem do cinema publicitário e já tem na bagagem diversos prêmios na área, além de já terem dirigido um curta, Tarantino’s Mind (2006), também protagonizado por Seu Jorge e Selton Mello.

Soundtrack é um filme que busca discutir diferentes questões existenciais, como a existência de Deus e a relação da arte com a ciência. Mas o que mais se destaca é o grupo, a amizade entre as personagens e a forma como as diferentes histórias e perspectivas de mundo se mesclam. Em alguns momentos, o diálogo se dá de forma muito pretensiosa, arriscando uma “filosofada” que não funciona tão bem. Apesar disso, é um filme que te prende e cativa ao longo dos 93 minutos como uma experiência artística e original.