Resenha: Legion – 1ª temporada

SEM SPOILERS

Quando o FX anunciou uma série do universo dos X-Men e começaram a sair as primeiras cenas e imagens, parecia que o canal iria entregar algo diferente, mas tão diferente, que chegaria a causar estranheza ao primeiro olhar. E assim que o último episódio foi exibido, a internet estava abarrotada de críticas elogiando aquilo que “havia mudado o conceito das séries de heróis”, ainda que os números da audiência não tenham sido tão positivos. Passado o hype, finalmente peguei Legion para assistir de uma vez só, e devo dizer que as críticas tinham razão em certos pontos.

Legion realmente entrega algo diferente de qualquer outra série de super-heróis. No entanto, a série não nega totalmente os quadrinhos e, em sua essência, ainda é uma aventura que poderia estar numa revista dos X-Men. Tudo está ali. Desde as agências governamentais agindo pela segurança da humanidade até os mutantes vivendo às escondidas, e claro, a equipe que se destaca na luta para que eles possam conviver em paz. Não é difícil imaginar o Professor Xavier e seus pupilos no lugar do Legião e sua trupe.

David Haller (Dan Stevens)

Infelizmente, é nessa trupe que moram os pontos altos e baixos da série. É indiscutível o quão interessante é acompanhar a jornada do protagonista David Haller, um homem diagnosticado com esquizofrenia, que sofreu com sua doença desde jovem, mas que não é um humano qualquer. David é um mutante, talvez o mais poderoso que já se viu, e guarda mistérios dentro dele que vão sendo revelados ao longo dos 8 episódios da primeira temporada. A história do personagem é muito boa, e quando um mistério é revelado, a trama fica mais confusa e te instiga a querer ver mais. Somados a isso, estão a ótima interpretação e o carisma do ator Dan Stevens, que dá vida ao mutante.

No mesmo tom do protagonista, está Lenny, a personagem interpretada pela Aubrey Plaza, que infelizmente não dá para ser detalhada sem entregar grandes spoilers da história. Mas dá para dizer que a atuação da atriz é excelente, conseguindo passar exatamente as sensações que sua personagem precisa causar no espectador. Logo atrás está Sydney Barrett (cujo drama lembra muito o da Vampira dos X-Men), interpretada de forma até competente pela atriz Rachel Keller, mas que não consegue sair muito do perfil “namorada do protagonista” graças ao seu arco.

Lenny (Aubrey Plaza)

De resto, os personagens do grupo principal tem seus momentos “essa é minha história” em que ganham alguma profundidade, mas na maior parte do tempo, eles estão ali só fazendo número. É claramente uma opção narrativa de destacar a jornada de David, que apenas conta com seus amigos para ajudá-lo. Fazendo um comparativo com o primeiro filme dos X-Men, basta lembrar como Tempestade e Ciclope, por exemplo, faziam número. A diferença aqui é que os personagens de Legion não existiam nos quadrinhos, então fica mais difícil se importar com eles.

Outro ponto que pode render uma crítica negativa é a forma como as personagens femininas são retratadas. Elas são fortes, sim, mas tudo gira sempre em torno dos homens que elas amam, e suas motivações estão sempre ligadas a esses homens. E para uma série que prometia ser tão diferente, esse ponto merecia um cuidado muito maior.

Sydney Barrett (Rachel Keller)

Com esses prós e contras em relação aos personagens, a série acaba se destacando muito mais por sua estética visual, que diga-se de passagem, é um espetáculo à parte. Essa primeira temporada foi uma mistura de referências que vão te lembrar desde “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças” até “Twin Peaks” ou algo dirigido pelo Terrence Malick. Legion vai parecer muito diferente de tudo o que você já viu numa série baseada em algum universo de super-heróis, mas talvez seja menos estranha se você já viu algumas dessas obras citadas. O primeiro episódio pode parecer muito confuso, mas tente seguir em frente porque a série põe um pouco os pés no chão nos seguintes, para só pirar de vez a partir do 6º capítulo. E se você não entender muito ao longo do caminho, não se preocupe porque no fim eles vão LITERALMENTE desenhar toda a história.

No fim, Legion vale muito ser assistida por tentar algo diferente, mas sem esquecer de que é essencialmente uma série de quadrinhos. E ainda que a jornada de auto-conhecimento de David tenha se resolvido, o final da temporada deixa o gostinho de quero mais, então que venham mais pirações e por que não, um episódio musical. Pode acreditar, se encaixaria perfeitamente!

Legion, 2017 – 1ª Temporada – 8 Episódios